Como tudo aconteceu?

0 Flares 0 Flares ×

Prestes a completar 80 anos, o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão faz um balanço da sua produção literária.

 

Quando olho para trás, me pergunto como e por que tudo aconteceu. Tudo são estes 43 livros publicados, mais os chamados livros institucionais, biografias de pessoas cujas vidas valem a pena ser lidas e histórias de empresas privadas que resistem ao tempo. Teria sido naquele meu avô paterno, José Maria, que, aos 21 anos e morando na fazenda Bela Vista em Araraquara, escreveu um poema?  O mesmo avô que construiu com ferramentas rudimentares a um século atrás, um carrossel? Teria sido nos contos que meu pai escrevia numa letra quase ilegível (que herdei) e que ele publicou nos jornais de Araraquara? Teria sido nos discursos que meu avô materno, Vital, fazia nos comícios políticos, cheios de imagens? Teria sido nos livros da Biblioteca Infantil Melhoramentos que uma parente, Maria do Carmo, me emprestava (um a um, entregava um, recebia outro)? Teria sido nos grossos volumes encantados do Tesouro da Juventude que duas vizinhas, a Nena e a Odete Malkomes, me cediam e iluminavam os dias de chuva e ventos? Ou teria sido tudo isso mais a vida que vivi, venho vivendo?

Estou chegando aos 80 anos com um livro de crônicas, gênero que descobri lendo Raquel de Queiroz em O Cruzeiro, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga na Manchete, e o Luis Martins em O Estado de S. Paulo. Hoje, neste jornal, sexta sim, sexta não, ganhei o espaço, que tinha sido de Raquel de Queiroz, o que me deixa feliz e cheio de responsabilidade.

Jornalista, vivi debaixo da ditadura militar, convivi (odiando) a censura, coloquei tudo em um romance chamado Zero, que me custou nove anos, e que se tornou emblemático de um tempo duro e difícil. A pós-ditadura está em outro romance que acabou sendo profético, apesar de eu ter inventado tudo, Não verás país nenhum, ficção sobre um Brasil derretendo ao sol, sem água, sem árvores e corrupto. Vivi em Berlim e antevi a queda do Muro em O verde violentou o muro, em que narro – foi a única grande reportagem literária sobre aquela Berlim hoje desaparecida publicada no Brasil – como era viver rodeado por uma fronteira de concreto e de burocracias e de terror. Escrevi contos, romances, literatura infantil, viagens, uma peça teatral. Não quer dizer que escrevo apenas sobre o que vivo e vejo. Minha fantasia vai longe, aprendi com as primeiras professoras que tive no Fundamental: Cristina Machado, Lourdes Parada e Ruth Segnini. Elas me ensinaram a imaginar, a procurar o absurdo, o louco, o diferente, o que não existe, mas está aí. O que me levou a livros como Cadeiras proibidas e O homem que odiava a segunda-feira.

De uns anos para cá comecei a recuperar minha infância que foi rica, não em dinheiro, mas em fantasia. Fui menino de rua, em um tempo que tínhamos de inventar uma brincadeira cada dia, não tínhamos dinheiro para comprar brinquedos. Essa busca, sem nostalgias, mas com poesia e humor, resultou em livros como O homem que espalhou o deserto, O menino que não tinha medo do medo, Os escorpiões contra o círculo de fogo e O menino que vendia palavras.

Sou de uma geração, chamada a De Setenta, porque nos lançamos todos naquele período, um grupo que falou em auditórios, teatros, salas de aula, porões de igrejas, pátios de estações ferroviárias desativadas, praças públicas, bienais, quadras esportivas, circos, centros culturais, bibliotecas e até na praça de alimentação de um shopping center em Piracicaba. Falei para sete pessoas na cidade de Ribeirão Pires, SP, e para seis mil nas Jornadas de Passo Fundo, RS, a maior do mundo.

Vivi vários Brasis, todos eles retratados em meus livros. Viajei e descobri um lado oculto e cheio de vida e estive com pessoas que querem mudar as coisas, trabalhando anonimamente.  Essas viagens estão em O mel de Ocara, em que fui do sul às vilas ribeirinhas do Amazonas. Estive com um pé em cada hemisfério, ao mesmo tempo, na cidade de Macapá. Falei para índios na aldeia dos Jenipapo Canindé no Ceará. Assisti, cercado por muros, arame farpado e grades, em Belém do Pará, à encenação de meu livro Os olhos cegos dos cavalos loucos pelos jovens da Fundação de Ressocialização; emoção maior, de chorar. Na cidade de Ocara, uma velha analfabeta me perguntou: “- O senhor compra suas palavrinhas assim como compro as sementinhas de milho na cooperativa?”. O que quer dizer: um escritor vive em permanente contato com a poesia simples e aguda do povo. Basta olhar, ter os ouvidos abertos, conversar, perguntar. Porque literatura é isso.

Inspiração é absorver, sorver, sugar o mundo a nossa volta, e narrá-lo. Literatura para mim é descrever este Brasil, esta gente, nossos problemas, alegrias e aflições, nossas crenças e desesperanças, nossa angústia e conceitos de felicidade, nosso riso e nosso pranto e, acima de tudo, lutar para mudar o que está aí, que não é bom e nos aflige.

 

 

Ignácio-de-Loyola-Brandão

 

 

 

 

Cia. dos Livros

No blog da Cia. dos Livros nossa missão é levar informação, entretenimento e todas as novidades do mundo dos livros e indústria editorial. Para os estudantes publicaremos sobre concursos, provas, tudo que envolve o universo do estudante. Resenhas, dicas, indicação de autores desconhecidos e famosos. Adaptações para o cinema, novos lançamentos, eventos da Cia. e mercado editorial, além de algumas curiosidades. Ler é conhecimento, te permite viajar sem sair de casa, compartilha cultura, te ajuda a escrever melhor, além de aguçar seu senso crítico. Vamos trocar ideias, comentários, sugestão ou dica, leia e compartilhe as suas ideias conosco!

Deixe um comentário

 
  • No blog da Cia. dos Livros você pode encontrar notícias sobre os melhores livros e todas as novidades do mundo literário. Fique por dentro dos lançamentos, pré venda e os best sellers mais procurados no mundo dos livros. Que tal separar um tempinho e ver quais são os livros mais vendidos do mundo?As maiores curiosidades da literatura? Leia e compartilhe as suas ideias conosco!
    Nossa missão é reunir todos os apaixonados por livros agregando cultura, conhecimento e comportamento. Temos um enorme prazer em compartilhar novidades literárias do mundo das artes, falar de culinária, livros de viagens e turismo e trazer as notícias mais curiosas do seu autor preferido.
    Se você busca aprimoramento e notícias da sua área de atuação, você pode encontrar informações sobre livros de direito, medicina, engenharia e muito mais. No blog da Cia. dos Livros, também temos espaço para estudantes, trazendo informações de concursos, livros de estudo e sobre carreiras.
    Visite a seção A boa do dia, e aguce a sua mente. Fique por dentro sobre datas, ideias e ideais. Não tem ideia do que fazer hoje? Na seção Eventos e Cia. você acha o que procura pra se divertir a valer. Mas, e se você tem aquelas dúvidas sobre de onde vem alguma coisa? Sua dúvida poderá estar explicada na seção De onde vem. Já lhe falaram que os infográficos são ótimos para esclarecer rapidamente sobre todos os assuntos? Visite a seção Infográficos do blog da Cia. dos Livros! Conheça também o site da Cia dos Livros, um mundo de livros em um site seguro e premiado.
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 Google+ 0 Email -- 0 Flares ×